O amadurecimento na dependência química

O pai fala: Filho eu te amo! Você me ama?

A criança fala: Não, eu amo a mamãe.

O pai diz: Você pode amar duas pessoas ao mesmo tempo.

A criança diz: Sério?

O pai diz: Claro!

A criança diz: Eu me amo, e amo a mamãe.

 

Aqui nesse pequeno diálogo do pai com a criança de 4 anos podemos perceber a exclusividade que o filho teve com sua mãe. Isso constitui a relação mãe-bebê, que é a fase mais importante na estruturação da personalidade do indivíduo. A partir do momento em que a mãe facilita a entrada em cena de um pai respeitado e valorizado, o bebê faz o reconhecimento de uma terceira pessoa, diferente da mãe. Assim, o bebê deixa de ser o projeto único da mãe, torna-se um indivíduo com suas características próprias, e possibilita novas relações com outras pessoas da família e depois com a sociedade.

A função de pai e de mãe independem se é a mãe ou o pai que executa. A função de mãe é diferente da função de pai, pois enquanto que a mãe o ensina no cuidado, na afetividade e no acolhimento, o pai ensina-o a seguir para a vida, explorar o território, seguir com autonomia. O bebê fica numa relação passiva, de recebimento de todos os cuidados básicos para sua sobrevivência. O mais importante saber é que sem a função paterna, o bebê ficará eternamente vinculado na relação com a mãe e dificilmente haverá amadurecimento, como no diálogo acima.

Na vida adulta podemos encontrar a relação “mãe-bebê”, por exemplo em casais onde um fica na posição passiva de recebimento e o outro fica na posição ativa em doar-se. Ou quando os pais se tornam idosos e seus filhos o tratam como bebê. Essa relação também ocorre no contexto da dependência química, onde mães ou pais ficam na posição de cuidados básicos com seus filhos, principalmente quando eles recaem no uso abusivo de substancias psicoativas, de tal maneira que com tantos cuidados, muitas vezes o dependente fica acomodado e não adquire sua autonomia, e passam a exigir que eles dêem tudo para ele: celulares, dinheiro para o uso, dinheiro para pagar dívidas com traficantes e assim por diante.

Podemos também pensar de várias maneiras diante das situações acima: “Se meu filho deu o celular em troca da droga, coitado, ele vai precisar de um novo”; “meu Deus, o meu filho ficou endividado com o traficante, melhor pagar senão ele pode ser jurado de morte”. Ceder sempre é um jeito mais fácil de lidar, pois a mãe exerce sua passividade na função de mãe e o filho fica na posição de bebê, ou seja, aqui estabelece-se a relação mãe-bebê. Mães acabam infantilizado filhos dessa maneira e ficam dependentes deles e os filhos acabam ficando dependentes dos cuidados da mãe, ou seja, ocorre apenas a função materna nesses exemplos acima.

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Ou podemos pensar: “se meu filho deu o celular dele em troca da droga, eu não tenho a obrigação de dar um novo para ele, ele deverá arcar com suas escolhas”. “eu não vou dar outro celular não, pois senão toda vez que ele perder o dele, ele irá pedir sempre”, “Se meu filho não pagou o traficante, ele deverá renegociar a dívida dele”. Muitas vezes, adquirir a postura de responsabilização do filho poderá ser algo ameaçador, onde surja medo de manter a palavra e sofrer retaliação, como: a agressividade, birra, vingança etc por parte do filho. No entanto, ajudá-lo a se responsabilizar pelas decisões que toma na vida e estimulá-lo a seguir rumo a vida, poderá estimulá-lo ao amadurecimento, ou seja, a função paterna ocorre nesses exemplos.

Quando a postura paterna é construída ao longo da vida juntamente com o filho, naturalmente será aceita com mais facilidade por ele, no entanto, se não foi construída não será tarde para aprender e construir juntamente com todos. Na clínica de recuperação Saúde Premium o diálogo sobre isso acontece constantemente, de tal maneira a estimulá-los ao amadurecimento emocional.